Qualquer aparelho de telefone celular nos conecta instantaneamente com qualquer parte da Terra, manda e recebe imagens e textos de, e para,
lugares que nos pareceriam inconcebíveis.
Sabemos tudo o que ocorre em velocidade eletrônica; conhecemos a intimidade de todos os artistas e outros "famosos"; temos a um toque todas as informações que quisermos sobre praticamente qualquer assunto.
O que nos falta, então?
Controle. Controle sobre os milhões de dados que podemos acessar, sua relevância, veracidade e contexto; controle real sobre a nossa própria vida e nosso cotidiano, quando nos iludimos que temos controle virtual da vida e do cotidiano dos demais.
O belíssimo verso de Carlos Drummond de Andrade "Tenho duas mãos e o sentimento do mundo", além de expressar fé na ação, sugere um mundo inteiro de significados e apenas duas mãos para atuar sobre ele. Nossa condição na pós-modernidade é de desencanto e desespero com nossa própria não significância. Perdemos nossas referências, todos os grandes temas parecem vazios e ultrapassados, todas as instituições risíveis e desnecessárias.
O assassino que mata futilmente e o adolescente que quebra tudo sem o menor sentido são vítimas desse desencanto, do sentimento de total impotência frente a realidades que não podem controlar e sequer entender.
Nesses tempos, o papel da educação assume maior importância. Não apenas a educação entendida em sentido formal, de sala de aula, mas compreendida amplamente, de todos nós para todos nós. Devemos educar pelo exemplo, pelas atitudes; não temos o direito de pedir ética se não agimos eticamente; não podemos ensinar respeito aos outros se não os respeitamos; para estabelecer limites é necessário que conheçamos os nossos.
Alguns fatos tem se repetido com frequência alarmante, de pessoas sofrerem assalto e agressões, embora tenham seguido o bom senso possível na situação, tentando manter a calma e entregando o que o assaltante pediu. Do ponto de vista racional não faz o menor sentido, afinal o ladrão teria como objetivo a obtenção de bens ou dinheiro correndo o mínimo risco, e pratica um ato que atrasa o seu "serviço" e em caso de ser preso aumenta muito sua pena. O que ocorre é que o marginal não quer apenas bens materiais que a vítima pode repor, ele quer tirar da vítima mais do que ela pode perder, a dignidade, a vida. Geralmente, o assassino está drogado, não raro é psicopata, mas há desígnio e método no seu delírio, pontuar seu poder e controle absoluto da situação, da sua vida enfim.
Assistimos recentemente o comportamento lamentável de alguns "torcedores" de nosso mais tradicional time de futebol, invadindo o campo e agindo como vândalos descontrolados após o jogo em que sua equipe foi rebaixada de divisão. Todos nós, independente do time de predileção, sofremos com esse rebaixamento, é menos um time de nosso Estado que disputará a série A no próximo ano, e a qualidade dos concorrentes é que valoriza um campeonato. Mas a atitude de quem quebrou cadeiras e outras propriedades de seu próprio clube, atacou policiais e outras pessoas, arriscando causar e sofrer ferimentos graves, podendo sofrer prisão e processos criminais, é absurda. Não parece justificável pela frustração, pelo excesso de álcool, pelos hormônios.
Tudo neste País, hoje, aponta para a necessidade da intensificação de um grande projeto educacional capaz de alterar, e para melhor, este quadro lamentável. Investir na criança, no jovem, na família como complemento indispensável de um programa de educação. Cidadania deve ser mais que uma simples palavra de nosso dicionário, deve ser fonte de real poder.