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Educação em tempo integral vira referência por Autor(a): Diário do Nordeste – 28/03/2009 - Caderno Regional

Passar o dia na escola torna-se modelo de referência para o novo ensino adotado em escolas públicas

 

 

Russas. O modelo de educação em tempo integral, adotado por algumas escolas do Ceará, tem se expandido no Interior. Os custos são maiores, mas os gestores municipais colocam como um dos principais instrumentos de promoção do desenvolvimento. As escolas ficam situadas geralmente em bairros periféricos e de maior risco social. A garotinha Lidiane Dias Costa, 5 anos, sai de casa, em Quixeré, 7 horas e só volta depois das 17 horas. O mesmo faz Gabriel Kennedy, 9 anos, em Russas. Enquanto Lidiane e Gabriel passam o dia na escola, os pais têm oportunidade de contar com mais tempo para trabalhar fora de casa e, conseqüentemente, compensar a falta de preparação escolar para dar um melhor acompanhamento educacional dos filhos em casa.

Passar o dia na escola pode, à primeira vista, parecer chato. Mas quem recebe educação em tempo integral não pode reclamar que, na hora da aula, não tem brincadeira, jogos, e é possível sair de lá com até mesmo a tarefa de casa já feita. No Centro de Atenção Integrada à Criança (Caic), de Russas, crianças do primeiro ao quarto ano têm desde aulas regulares (dento do currículo regular exigido pelo Ministério da Educação) a aulas de música, pintura, recreação, educação física, além de o devido tempo para banho e almoço.

“Aqui o aluno está envolvido em diversas atividades que não teria numa escola regular”, afirma o professor Renato Silva Alves, diretor da Escola Municipal João Oliveira Lima, a primeira do município de Quixeré a implantar o modelo de educação em tempo integral. O método atinge crianças do 1º ao 4º ano letivo do Ensino Fundamental, de 5 a 10 anos. A escola foi criada neste ano e atende a famílias do bairro Pontal, área considerada de grande “risco social”.

Potencial de envolvimento

Passar o dia na escola é apontado como alternativa à ociosidade infantil — muitas crianças e adolescentes das áreas periféricas ficam sozinhas em casa quando chegam da escola, ou no meio da rua, com as demais — aumentando o potencial de envolvimento em atividades ilícitas ou que, futuramente, podem causar a desestrutura do processo de ensino, como a falta de alguém para o reforço escolar. “Tem pais que não sabem nem ler, então ficam sem condições de ajudar os filhos na tarefa de casa, e quando a criança passa mais tempo na escola, é ajudada por professores de reforço”, afirma Francisco Gleydson, diretor do Caic, uma das maiores escolas públicas do Município e que é referência em educação integral, que atinge cerca de 25% dos seus alunos.

Conforme a secretária da educação de Russas, Lindalva Pereira, a implantação do sistema integral de ensino se dá de forma gradual. A cada novo ano, mais uma turma é acrescentada ao modelo. Em Russas já são quatro escolas que adotam o tempo integral.

Os custos para a implantação da educação integral são maiores, e têm afastado prefeituras municipais dessa nova realidade, afinal são mais professores (para as diárias atividades artísticas e recreativas), cozinha com estrutura para fornecimento diário de almoço, banheiros com chuveiros em uma estrutura que atende a um menor número de alunos, já que a permanência na escola afeta o revezamento comum nas escolas, que oferecem turnos de manhã, tarde e noite.

Do início ao final do ano de 2006, uma turma de alunos do 2º ano do Ensino Fundamental melhorou de 34,5% para 64,5% o índice de estudantes que sabiam ler e escrever corretamente. A professora Eunice Alves, de Russas, defende que toda escola deveria ter tempo integral para os alunos do Fundamental. “Eles melhoraram muito em sala de aula, tem mais tempo de estudar e tirar as dúvidas”, esclarece a professora do 2º ano do Centro de Atenção Integrada à Criança.

Ação prioritária

“A educação tem que ser prioridade. Se eu tenho um forma de colocar crianças na escola, tirar, por mais tempo, do meio da rua, das drogas, da violência, e com o estímulo que ela ganha ao ter o reforço que muitas vezes não tem em casa, estou evitando de gastar mais lá na frente”, afirma o prefeito do município de Russas, Raimundo Cordeiro.

Para a especialista em Educação e psicopedagoga Maria Lúcia Silva Chagas, de Limoeiro do Norte, a educação integral é uma boa estratégia na solução do problema a que se propõe, mas é preciso cuidado “para não se tornar um caminho para o assistencialismo”, em que responsabilidade naturais inerentes à família sejam transferidas para a escola.

ATIVIDADES VARIADAS

Quixeré comprova resultados positivos

Quixeré. Um município pequeno, mas que inovou com a criação de sua primeira escola com educação totalmente em tempo integral foi Quixeré, onde mora o professor Renato Silva Alves, diretor da escola municipal João Oliveira Lima. Foi Renato quem encaminhou a sugestão de pauta para o Alô Redação, do Diário do Nordeste, “porque temos percebido que o trabalho realizado com as crianças aqui da escola tem gerado ótimos resultados, pois aqui se trabalha o aluno como um todo”, afirma. Em Quixeré são atendidas 120 crianças entre 5 e 10 anos. Elas têm aulas em sala, almoço com cardápio diferente em cada dia da semana. Ninguém come sem antes tomar um bom banho — os banheiros foram instalados com chuveiros acessíveis aos pequenos.

Conforme o prefeito de Quixeré, Raimundo Pitiúba, a intenção é criar novas unidades no município com a estrutura oferecida pela Escola João Oliveira Lima. “As crianças tem atenção, comida, lazer e educação num só espaço”, afirma o diretor Renato Silva. Assim como em Quixeré, Russas comprova bons resultados.

“A proposta do tempo integral é fundamental para se promover a educação completa de que tanto se fala, pois quatro horas é muito pouco para as crianças que têm dificuldade, as vezes não tem família para ajudar, as mães trabalham, os pais não são pessoas letradas. Depois a gente considera que é fundamental que a criança esteja na escola para não ficar na rua aprendendo o que não deve. Quanto mais tempo na escola, menor a chance de entrar na marginalização”, justifica a secretária de Educação de Russas, Lindalva Pereira.

O município criou o primeiro modelo integral em 2006, já no Centro de Atenção Integrada à Criança (Caic) e na Escola de Ensino Fundamental Luis Ferreira Lima, ambas em bairros carentes.

“Inicialmente o tempo integral é mais caro, porque tem que colocar novos professores, mas a gente não trabalha só com professores, tem monitores para dança, para o teatro, para as escolinhas de esporte, e tem professores para reforço de aprendizagem”, afirma Lindalva. O tempo integral intercala aulas regulares, obedecendo o currículo, seguido de atividades lúdicas. As escolas que não oferecem horário integral realiza o reforço escolar dos alunos que mais precisam, por meio da jornada ampliada – seis horas na escola.

ALERTA

Famílias devem ter maior participação

Limoeiro do Norte. Como a educação brasileira, em geral, o modelo de tempo integral não pode se resumir a uma programação variada durante oito, nove horas dentro da escola. É necessária a qualificação profissional e a consciência da responsabilidade entre agentes educadores, famílias e estudantes. O alerta é dado pela especialista em Educação, Maria Lúcia Silva Chagas, psicopedagoga com 40 anos de trabalhos voltados principalmente para a Educação Infantil. A professora defende que o modelo em tempo integral é um empreendimento de alto valor educacional, com estimativa de elevados resultados.

“Mas é preciso que antes de implantar o modelo integral em qualquer escola de uma cidade, haja uma tomada de consciência de todos os envolvidos no processo. Hoje temos muitos empregos na educação e menos profissionais educadores. A pouca qualidade da educação hoje em pauta não está na falta de recursos financeiros, e sim no gerenciamento indevido das ações nas suas instâncias”, afirma, acrescentando que “falta algo menos dispendioso e de resultado positivo mais cedo: relações interpessoais, orientações aos familiares, sobre os problemas de aprendizagem, monitoramento das ações educativas e a exclusão radical da política partidária no processo educacional”.

Lúcia Silva alerta, ainda, para o papel da família, que não pode diminuir mesmo com o menor tempo do aluno em casa. “Uma estratégia como esta não pode transformar a escola num lugar-abrigo para que os pais fiquem livres das responsabilidades. Eles devem estar envolvidos mais do que antes, desde que com orientação. Oferecer condições para o aluno aprender acontecerá com maior organização das instituições, investimento pessoal”.

MELHORIA

64,5% é o índice de alunos que passaram a ler e escrever corretamente após a adoção do modelo de escola em tempo integral em Russas. Antes, esse percentual chegava a apenas 34,5%.

 
 
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